9 de novembro de 2009
Angélica
Aos olhos chorosos e inúteis disse dali, pregado em martírio: acalma-te, mãe, que o peito ainda vive. Crente, ligou o rádio e pode cantarolar um samba-canção, cuja letra lhe escapava.
5 de novembro de 2009
Minhas madrugadas II
O calor - demais - derretia os corpos sobre a cama. Os punhos cerrados não reteram a carne desfeita em lágrima. Um carro derrapava em roxa velocidade pela noite paulistana. O menino insone não viu. Mas que bobagem: era a lua nova tão grávida da última madrugada.
30 de outubro de 2009
Por causa de você
Síndrome de Penélope. Doméstico signo de trabalho. Volta: vê a ti no baralho viciado; noviciado da fortuna: lance de dados. Na mesa, na mesa da casa, está posto o banquete. Ceia posta. Fala. Tudo parece irremível, velho. E o vinho - esquecido aberto.
22 de outubro de 2009
Cotidiano
Do meu velho morto os dias em tediosas sobrancelhas. Amor, o trilho? Dá-me velas épicas, o beijo das oliveiras. Boa noite, bom dia. O cabelo corto amanhã; o cotidiano não: contarei as novas ao trabalho da tesoura. Velhas três trinta moedas de palavra. Era noite em Singapura e o trem já partira da Luz.
11 de setembro de 2009
Construção
A casa deslocou-se três centímetros. Os que dentro dormiam sequer notaram. Despertos, seguiram o protocolo do dia. A história é outra. Começa: bom dia, tudo bem?; tudo. A resposta não se interessou pela tréplica. Três centímetros: quase nada.
7 de setembro de 2009
19 de julho de 2009
18 de julho de 2009
Last night when...
Acordar doente é exercício do egoísmo: carne moída, a minha: cansaço permetido: ânsia irritadiça. Deixa-me ficar: hoje eu não te procuro, hoje eu não te espero, hoje eu não te provo nada, hoje eu não te escuto, hoje eu não insisto, hoje eu não aceito, hoje eu não quero mais. Lua crescente: metade minha, metade tua. Hoje, serás luz. Ou esqueça: ages ago, last night.
15 de julho de 2009
As time goes by
I forgot we said no questions - era esta a fala, se bem me lembro. Hoje é dia, amanhã pode ser aniversário ou revéillon, amanhã ainda não é. Hoje é incômodo feito sarna, papél largado, ontem ainda não era. Dependes do presente as time goes by. Conheces meu passo, não o passado. Quisera confiar no sorriso envergonhado do desconhecido naquele toque não atendido. Quisera crer que o restante não foram sobras - é todo doce que se consome aos bocados. Não sou o acento errado, e controlas o texto. Leia com vagar, compassado as time goes by.
6 de julho de 2009
Una partita a poker!
Desfaço o leque de minhas cartas. Tarot na manga. Blackjack estourado. Babel: jogo de azar, bárbaras guerras. Amor não lê diplomacias e berra: the pipes, the pipes are calling. A casa sempre ganha, dizem. Uma delas.
11 de junho de 2009
Teresinha
Alguns passam julgando ser um atalho. Alguns passam pelo prazer da dificuldade aparente. Alguns, perdidos, simplesmente passam. Invariavelmente todos chegam a mim pela guarida. Senhores, repito, a guerra é injusta; a demanda, precipitação. Por acreditar, fiquei pelo caminho. Para esperar não os que vigorosos passam, mas o derrotado que há de voltar.
22 de maio de 2009
Trocando em miúdos
Tentativas de síntese do Não: 1)Às vezes o negro é para reter calor. Às vezes, pela idéia morta. 2) Às vezes o negro é para reter calor. Às vezes, uma péssima idéia. 3) Às vezes o negro é pela idéia morta. Às vezes, pela ilusão morna. 4) Às vezes o negro é para reter calor. Sempre, cansa. 5) Às vezes o negro não vê. Às vezes nego. 6) Às vezes luto. Às vezes luto. 7) Às vezes o negro: pois é, às vezes.
20 de maio de 2009
Sunny Side of the Street
Não temos Paris. Não temos Manhattan. Temos bons filmes. Bons livros. Temos olhos atentos: dois cada, são oito. Dedos ágeis: dez cada, são quarenta. Bom estômago, fígado nem tanto: trinta é muito, vinte cada, dá oitenta, isso, Brahma. No débito. Temos telefones: quatro celulares, quatro residenciais, oito números cada, cento e vinte oito no total. Temos bom coração, semi-novo: um só: romantismo já gasto, ano 80 e pouco, peças genuínas - único dono. A gente parcela. Amores a prazo, no crédito. Puta rombo no fim do mês. O trânsito de São Paulo é foda. Não temos Paris. Não temos Manhattan. Mas mesmo com não, a gente dá um jeito de terminar com sim.
(também em Todos dizem eu te amo, acompanhado)
7 de maio de 2009
Where or When
Noite caída em corpos circulares, especulares cartografias. Quando o sábio fala pelo Eclesiastes. Seus olhos são verdes? Castanho claro, é a luz. Você parece aquele ator, esqueci o nome. Ma mio misterio è chiuso in me. Quisera corar em francês, ir para cama em italiano. Você é tão pequenininho. Nihil novum. Ruborizo pela liturgia. Eu queria dizer uma coisa, me lembra um verso. Vanitas: cala, cala, shantihi.
26 de abril de 2009
Futuros Amantes
Do chuveiro veio a matéria suspensa. Entre espumas e sabonetes, pelo apartamento. Lençóis alagados, alagadas almofadas. Não cessava, não cessava. Janela a dentro - deu no jornal: bom tempo na cidade; pancadas pelo interior. Entre sabonetes e espumas, pelo apartamento. Consumidos os armários, ralearam café e soneto: papel já pele que o toque desfaz / diluída tinta do azul ao púrpura/ jaz vaga qual às palavras apraz. Indeed, my lord, you made me believe so. Açúcares misturados aos ácaros afogados. Muita saúde era ressaca. Estranha infusão, estranho aquário. Um hausto. Guela a dentro - deu no jornal: acharam-na boiando, a donzela, num quadro que julgaram démodé, mas calaram em respeito ao luto.
22 de abril de 2009
Não sonho mais
Não sonhei contigo: humor freudiano. Era uma corrida em uma caverna: humor platônico. Dois homens e uma criança e eu. Era uma coreografia e se cantava la habanera: humor pastelão. Um dos homens, o que perdia, arremessou a pequena por entre as pedras. Fingi horror, mas desejei: humor negro. Fruir aquele prazer era raiva. Vontade de ver sofrer. De ver cortar. Doer. Mais si je t'aime, si je t'aime, prends garde à toi. Não era um pássaro; era morcego: e não teve graça.
14 de abril de 2009
Folha morta
Caixa esquerdo coração: Sinatra & Jobim, El amor en los tiempos del cólera, As sonatas para cello de Brahms: medíocres metonímias. Alô, não tem ninguém com esse nome. Esperei algum tempo para entregar o presente que acabou entregue ao quadrado papelão de memória. Herança secreta solteira. In pectore. Desculpa, foi engano.
13 de abril de 2009
A cereja e o vermouth
Parece bolero. Eu disse: veja algo com baixo teor de desilución. Completei sussurrando pro anônimo ao lado: é que sou fraco pra essas coisas - pois que havia me subido à cabeça.
10 de março de 2009
Dor de cotovelo
Eu - começa a loucura. Invento estimação. Cão com vôo. Mania de carinho, mania de cuidado. Comércio de colares. Insônias cóleras. Dio, come ti amo! Eu - começa a história. Invento espaço; tempo invento. Giro em círculos, finjo-me morto. Espelho insurreto. É preciso vencer. Guerra do objeto. Parasita armada. Sob a pele, sob a célula. Eu - começa incrédula. Cão e ninho. Cão e filho. Baixo cúme: a prole-suga do ciúme.
7 de março de 2009
Clube da Esquina nº. 2
Acordou o despertador, eu já havia despertado. Desejei-te em lembrança e perdi teu rosto. Drummond falou d'essas coisas' interditas às seis. Chorei, não pingou. Saudei senis amores que não se pensam mais. Procurei uma longa conversa telefônica. Quis condenar algo; nada ocorreu-me. Resmunguei estas linhas. Olhei a janela longamente. Volto a escrevê-las. Aí não faz mais sentido. Aí é tacanho e infantil. Lembro da amiga que chega em casa. Julgo vulgar meu estado. Almejo coisas simples e vejo justiça nelas. Nada irá mudar. Verei um círculo. Talvez a bola, que não chuto. Talvez a lua, que é uma convenção. Resumirei em juvenília esta história contida num livro cheio delas. Atrasarei para o trabalho. Aí foi sábado e não descansei.
5 de março de 2009
O amor em paz
O ocaso estendido em passos. Andar passado. Prenúncio de chuvas na antiga linha seca. E ofereceu-me o mundo. Tantos mais passos sob nuvem negra. E insistiu na oferta. Dê-me teu silêncio sólido e perene - respondi. Vi pedras e preciptei-me. Passou; água não veio. Nalgum outro deserto, o povo deu graças.
1 de março de 2009
Luíza
Pobre amador quem diz de tua vida. Mel em multicores, multicopas. A bosssa, a barba rala. A princesinha, a pérola, a pala. A via sacra em mosaico ao mar. Corpo de malas. Mates, remates. - Contemplei a criação; era boa. Nada disse. Despedi-me, no sétimo dia, em desalento e diesel.
27 de fevereiro de 2009
Sobre todas as coisas
Sobre a cúpula dos canhões procurei-a nalgum azul. Aquela palavra. As demais usurpavam-se, pois a guerra é injusta. Um estrondo fez o silêncio ampliar-se em ecos. A pedra se preencheu do som jamais ombreado pelos cilindros a mirar o mar. Se ouvíssemos.
17 de fevereiro de 2009
Dream a little dream of me
Sonhos procuraram tua silhueta. Saltou souvenirs e poeira. Passou chansons d'amour, passou cansos, sestinas. Pisou sigiloso em subterrâneo leito. Damsel in distress. O súbito anti-amém: assim não foi.
16 de fevereiro de 2009
Lover man
Gastei uma hora para encontrar o mineiro, que disse: Quero ser amado por e em tua palavra / nem sei de outra maneira a não ser esta / de reconhecer o dom amoroso. Se não falo de amor, digo que estou apaixonado pela idéia do hálito da boca de uma palavra que faz girar a mó das águas de um não-março. Não entendam mal: se não existe em verdade, se não existe em mentira, existe no espaço entre duas unhas. Ponte avulsa. Vicário útero.
26 de dezembro de 2008
3. Esperança perdida
Promessas, qual nada. Amanhecer. Ninguém diz. Ouvidos da casa, mudos. Esperei que ligasse. Esperei que dissesse. Mesmo assim respondi: Eu só queria um, um, bom motivo para não desistir. Como se quisesse, eu também. Como se déssemos graça. Como algum troço que nem se lembra. Alguém. Traço. Qual nada! Ter de ligar o rádio. Música ordinária, ordinário mundo.
2. Minhas Madrugadas
Antes de dormir pensei um começo. Agora, me escapa. Desajeito. Voltar quase sempre é partir para um outro lugar: havia um samba que terminava assim. Os perigosos primeiros. O primeiro não, o primeiro sim. A primeira grande paixão. Lembro de ti. É cruel querer terminar aquela história escrita por outro - sobretudo, quando o outro fui eu. And I said Yes I will Yes.
1. Love for Sale
São três: Love for Sale, da Billie e Illusions, da Dietrich. Nesta ordem, durante o banho. A certeza íntima de que ninguém saberia entender. Porque estou acima de qualquer história. Porque estou acima da autocrítica. Porque estou acima destas palavras ordenadas. Sim, a certeza subterrânea de que eu sou aquele que entende; não aquele que diz: isto é jazz. A terceira foi o silêncio.
21 de agosto de 2008
Jeito de corpo
Vou perguntar novamente. Diga Sim. Contar que na noite passada sonhei um antigo corpo. E nesta, me alongo em insônia. Acordado, no caderno há um nome que não identifico sob o risco. Meu presente arrisco em um dado branco. O jogo não é justo, afinal. As minhas mãos diminuídas. Mas falei de filhos e toalhas de mesa, pois sou do tipo. Da lua, que anda cheia e tão clara no quintal - seria luz acesa? Vendo as sombras esticadas pelo varal sem roupa, escutei um standard, não sei se Porter ou Hart. Não pude acompanhar.
19 de agosto de 2008
Smile
Não foste tu. Tampouco os romances que leste e que deles pronuncio os personagens num francês mais ou menos acertado. Não te impressione. Não te impressione com meus gestos. Não foste tu. Nem eu... Foi aquele sofá de possibilidades. De reter um perfume em meu ombro. De observar limites. De escutar Piaf. De sorrir. Se estas palavras coubessem naquele beijo... Tampouco seriam as palavras. Misteriosa lótus, crescida em tua palma esquerda. Dela nasceu um silêncio com dentes alvos. Assim o divido.
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