E o dia fora de rostos pertinentes a sua carência. Mas ainda havia: do fundo daquele ônibus, o outro vestia um terno, trazia com dificuldade o instrumento. A coincidência do ponto em que desceram fez com que ele procurasse em si alguma beleza para reclamar um acorde. Pediu: te pagaria por uma peça qualquer. Agora. Pra mim. Ele aceitou sem dizer palavra. Aberta a capa, era liberdade. Começou. Teus olhos são luminosos. Não respondeu - ainda não. Dedilhou, não porque pedia a partitura - assim o fez por disponibilidade. Também por disponibilidade, ao baixar o arco, respondeu: conserve a fluência de teu sorriso. Era uma rua de bairro, na calçada. Era Brahms, em adagio affetuoso. Já no quarto, vestido o fraque de realidade, recebeu o bom Slava.
25 de março de 2008
Op. 99
E o dia fora de rostos pertinentes a sua carência. Mas ainda havia: do fundo daquele ônibus, o outro vestia um terno, trazia com dificuldade o instrumento. A coincidência do ponto em que desceram fez com que ele procurasse em si alguma beleza para reclamar um acorde. Pediu: te pagaria por uma peça qualquer. Agora. Pra mim. Ele aceitou sem dizer palavra. Aberta a capa, era liberdade. Começou. Teus olhos são luminosos. Não respondeu - ainda não. Dedilhou, não porque pedia a partitura - assim o fez por disponibilidade. Também por disponibilidade, ao baixar o arco, respondeu: conserve a fluência de teu sorriso. Era uma rua de bairro, na calçada. Era Brahms, em adagio affetuoso. Já no quarto, vestido o fraque de realidade, recebeu o bom Slava.
13 de março de 2008
Chuá Chuá
4 de março de 2008
Resposta ao tempo
(sobre texto de Thais Monteiro)
17 de fevereiro de 2008
Inútil Paisagem
9 de fevereiro de 2008
Você não sabe amar
Ai que preguiça, amor... De te ouvir falar outra vez de grandes planos para o futuro, amores e viagens sem destino. De teus questionamentos miúdos sobre vida e metafísicas. De tuas artes poéticas. Amor, e se ficássemos quietinhos? Afastemos este espelho e seus barroquismos. Porque não iremos ganhar as estradas. Nossas páginas guardam o único segredo, aquele que responderia, afinal, o porquê delas existirem. Fiquemos com o pó. Porque nossas orgias e pecadinhos servem mais para contar aos outros e a nós e menos a algum propósito de evolução espiritual. Ou corpórea, se preferir - o objeto de culto não altera os rituais. E então te apaixonas pelo teu próprio texto, quando o texto tem tanto sangue quanto aquele pé de arruda. Este mundo, amor, não se presta a isto. Aqui se exercita outra carne. Deixemos tua megalomania existencial para embalar teu sono ou para mascarar-te a rotina dos dias. Antes de ires, amor, reclame novamente minha sempre condescendente opinião e não te esqueça de meu beijo. Vá seguro de ti, enquanto eu arremesso ao cesto uma nova bolinha de papel e tento assim um último acerto.